O horror, o terror e o impensável
O cinema contemporâneo tem confundido medo com susto. Os filmes de terror e suspense sempre contam com esses dois ingredientes mesmo, mas tanta sanguinolência e monstruosidade gratuitas nos filmes mais recentes parecem mostrar uma tendência para o mero susto, ou ainda para o choque de cenas nojentas, o que é pior.
Proponho dois exemplos dessas duas tendências nada criativas. Na primeira situação estão os filmes do tipo "Pânico" (como "Eu sei o que vocês fizeram no verão passado", "Lendas urbadas" etc.). Tais produções não passam de novelinhas de atores jovens e ruins em cenas entrecortadas com o surgimento súbito do assassino e a correria subsequente. O outro estilo de terror, um pouco mais recente, é exemplificado pela franquia "Jogos mortais", que tem como arma o sadismo do vilão e as mortes pelas mais variadas bizarrices. Sangue, gritos, e mais sangue. Há ainda uma terceira vertente, importada do Oriente, de filmes de fantasmas onipresentes e obscuros, como em "O grito". Esses apelam para medos com base em fantasias infantis de monstros, bicho-papão etc. Desses filmes eu nem quero falar porque é muito difícil comprar essas idéias.
Enfim, filmes de terror viraram filmes de susto ou de nojo. Ou seja, não são filmes de terror, mas de horror. Não existe suspense, por isso são produções cansativas e monótonas.
O susto e o nojo são formas diferentes de estimulação. O choque do primeiro vem pelo inesperado. É o inesperado que sustenta o susto, o que nos leva a concluir que o que nos assusta não precisa ser sempre algo relacionado à morte, como a aparição do assassino. Qualquer coisa, em potencial, pode ser assustadora, e um bom diretor de filme de terror deve saber disso.
Já o desconforto do nojo vem pela sugestão de algo aversivo. Sangue, gosmas, sujeira, criaturas monstruosas e deformações tem presença marcante aqui. No entanto, repare: nem sempre algo aversivo cria o terror. Quem assistiu ao brilhante "Pequena Miss Sunshine" e viu aquele concurso de beleza mirim sabe bem disso. Às vezes, o grotesco vira algo cômico, ou meramente burlesco.
Se um diretor de cinema consultasse um psicanalista para saber o que é verdadeiramente terrorífico para poder criar e contar suas histórias, ele poderia conceber um terror que fosse ao mesmo tempo inominável, sem forma e sem medida, que espreita silenciosamente, sem fazer barulhos de passos ou ruídos fantasmagóricos. Esse terror, vindo de dentro, se apresentaria nas sensações e estados mentais dos personagens como uma ameaça indescritível de que sua própria existência viesse a ruir a qualquer momento.
O que tentei descrever é uma abstração semelhante ao que os psicanalistas entendem por um terror sem nome, resultado de ansiedades primitivas, mal elaboradas nas primeiras relações do bebê com a mãe. Ou seja, são ansiedades que não tiveram continência e que ficam registradas na mente sem um nome, sem a possibilidade de serem pensadas, trabalhadas, superadas.
Só que há um problema: esse terror, que é o protótipo de um mal-estar implacável, seria "infilmável". Como um diretor conseguiria captar nas lentes de sua câmera um terror desse porte, tão contundente quanto etéreo?
Pode parecer difícil de acreditar, mas esse resultado pode ter sido alcançado no recém-lançado filme "Fim do tempos", de M. Night Shyamalan, o mesmo diretor de "O sexto sentido".
Em "Fim dos tempos", acompanhamos a história de um professor de ciências que deve proteger a namorada e sua sobrinha de uma misteriosa praga assassina. As cenas são aterradoras, perturbadoras: as pessoas que são atingidas por essa praga, que se move silenciosamente pelo ar, começam a ficar desorientadas, deixam de falar coisas coerentes, param de se mexer e de repente se matam. Pulam da janela, cortam os pulsos, dão tiros na cabeça, enforcam-se, batem os carros etc. Parece justamente a metáfora do tal terror sem nome: incapacidade de pensar associada a um sentimento atônito de não existência.
O terror de "Fim dos tempos" é genuíno, sem trapaças ou grandes explicações. Ele se sustenta pela constatação desconfortável de que a verdadeira essência do terror está dentro de cada um. Você pode fugir, correr, tentar se esconder, mas não conseguirá escapar se a força desse terror se mover a partir de dentro de você.
Os bons filmes de terror são justamente aqueles que incluem uma certa dose de realidade na trama. Afinal, é confortável passar sustos com serial killers fantasiados ou fantasmas japoneses sabendo que não existem no mundo real. O bicho-papão da infância nada mais é do que a projeção das fantasias hostis e agressivas da criança num objeto externo ao ambiente familiar, para tornar este protegido em sua fantasia. O difícil mesmo é quando histórias mostram um medo na trama que possua algo de verossímil, que é tangível à nossa experiência sofredora. E é isso que acontece em "Fim dos tempos".
Se você quer ver um filme de terror verdadeiro, esse é um bom filme para se apavorar.

