8.9.08

O horror, o terror e o impensável

Sempre tive problemas com filmes de terror e suspense. Tendo a ficar num desconforto chato durante a maior parte do tempo em que assisto a essas produções. E não se trata do desconforto diante do medo e do suspense, que é o que normalmente se busca nesse tipo de história. É que simplesmente detesto levar sustos.

O cinema contemporâneo tem confundido medo com susto. Os filmes de terror e suspense sempre contam com esses dois ingredientes mesmo, mas tanta sanguinolência e monstruosidade gratuitas nos filmes mais recentes parecem mostrar uma tendência para o mero susto, ou ainda para o choque de cenas nojentas, o que é pior.

Proponho dois exemplos dessas duas tendências nada criativas. Na primeira situação estão os filmes do tipo "Pânico" (como "Eu sei o que vocês fizeram no verão passado", "Lendas urbadas" etc.). Tais produções não passam de novelinhas de atores jovens e ruins em cenas entrecortadas com o surgimento súbito do assassino e a correria subsequente. O outro estilo de terror, um pouco mais recente, é exemplificado pela franquia "Jogos mortais", que tem como arma o sadismo do vilão e as mortes pelas mais variadas bizarrices. Sangue, gritos, e mais sangue. Há ainda uma terceira vertente, importada do Oriente, de filmes de fantasmas onipresentes e obscuros, como em "O grito". Esses apelam para medos com base em fantasias infantis de monstros, bicho-papão etc. Desses filmes eu nem quero falar porque é muito difícil comprar essas idéias.

Enfim, filmes de terror viraram filmes de susto ou de nojo. Ou seja, não são filmes de terror, mas de horror. Não existe suspense, por isso são produções cansativas e monótonas.

O susto e o nojo são formas diferentes de estimulação. O choque do primeiro vem pelo inesperado. É o inesperado que sustenta o susto, o que nos leva a concluir que o que nos assusta não precisa ser sempre algo relacionado à morte, como a aparição do assassino. Qualquer coisa, em potencial, pode ser assustadora, e um bom diretor de filme de terror deve saber disso.

Já o desconforto do nojo vem pela sugestão de algo aversivo. Sangue, gosmas, sujeira, criaturas monstruosas e deformações tem presença marcante aqui. No entanto, repare: nem sempre algo aversivo cria o terror. Quem assistiu ao brilhante "Pequena Miss Sunshine" e viu aquele concurso de beleza mirim sabe bem disso. Às vezes, o grotesco vira algo cômico, ou meramente burlesco.

Se um diretor de cinema consultasse um psicanalista para saber o que é verdadeiramente terrorífico para poder criar e contar suas histórias, ele poderia conceber um terror que fosse ao mesmo tempo inominável, sem forma e sem medida, que espreita silenciosamente, sem fazer barulhos de passos ou ruídos fantasmagóricos. Esse terror, vindo de dentro, se apresentaria nas sensações e estados mentais dos personagens como uma ameaça indescritível de que sua própria existência viesse a ruir a qualquer momento.

O que tentei descrever é uma abstração semelhante ao que os psicanalistas entendem por um terror sem nome, resultado de ansiedades primitivas, mal elaboradas nas primeiras relações do bebê com a mãe. Ou seja, são ansiedades que não tiveram continência e que ficam registradas na mente sem um nome, sem a possibilidade de serem pensadas, trabalhadas, superadas.

Só que há um problema: esse terror, que é o protótipo de um mal-estar implacável, seria "infilmável". Como um diretor conseguiria captar nas lentes de sua câmera um terror desse porte, tão contundente quanto etéreo?

Pode parecer difícil de acreditar, mas esse resultado pode ter sido alcançado no recém-lançado filme "Fim do tempos", de M. Night Shyamalan, o mesmo diretor de "O sexto sentido".

Em "Fim dos tempos", acompanhamos a história de um professor de ciências que deve proteger a namorada e sua sobrinha de uma misteriosa praga assassina. As cenas são aterradoras, perturbadoras: as pessoas que são atingidas por essa praga, que se move silenciosamente pelo ar, começam a ficar desorientadas, deixam de falar coisas coerentes, param de se mexer e de repente se matam. Pulam da janela, cortam os pulsos, dão tiros na cabeça, enforcam-se, batem os carros etc. Parece justamente a metáfora do tal terror sem nome: incapacidade de pensar associada a um sentimento atônito de não existência.

O terror de "Fim dos tempos" é genuíno, sem trapaças ou grandes explicações. Ele se sustenta pela constatação desconfortável de que a verdadeira essência do terror está dentro de cada um. Você pode fugir, correr, tentar se esconder, mas não conseguirá escapar se a força desse terror se mover a partir de dentro de você.

Os bons filmes de terror são justamente aqueles que incluem uma certa dose de realidade na trama. Afinal, é confortável passar sustos com serial killers fantasiados ou fantasmas japoneses sabendo que não existem no mundo real. O bicho-papão da infância nada mais é do que a projeção das fantasias hostis e agressivas da criança num objeto externo ao ambiente familiar, para tornar este protegido em sua fantasia. O difícil mesmo é quando histórias mostram um medo na trama que possua algo de verossímil, que é tangível à nossa experiência sofredora. E é isso que acontece em "Fim dos tempos".

Se você quer ver um filme de terror verdadeiro, esse é um bom filme para se apavorar.

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20.8.08

Emoções olímpicas

A medicina moderna, e quase todas as carreiras de saúde, de uma forma geral, consideram a vida emocional como um elemento preponderante a ser levado em conta na hora de compreender as causas de alguma doença ou de algum transtorno. Ou seja, é amplamente aceito que a dimensão psicológica pode estar relacionada entre os fatores desencadeantes ou predisponentes de diversos quadros clínicos. Por isso, um diagnóstico bem feito pode tirar dúvidas quanto a natureza de uma doença e, a partir disso, indicar o tratamento mais adequado.

Assim, uma pessoa que tem crises de desmaios freqüentes possui alguma doença neurológica ou sofre através de seu corpo algo que fora reprimido em sua mente? Uma criança com marcadas dificuldades de aprendizagem sofre de algum déficit no aparelho perceptivo (precisa de óculos ou de aparelho auditivo) ou suas dificuldades são resultado de uma vida mental desorganizada por fortes ansiedades vividas na escola? Um sujeito com insônia estaria com alguma alteração hormonal ou as horas sem dormir vêm à tona como resultado de um impulso irreprimível em se tornar um vigia da casa, como na sua infância, quando não queria que os pais fizessem mais irmãozinhos?

Em geral, tendemos a preferir que as causas de nossas dificuldades sejam emocionais. Quando o clínico exclui o fator físico e orgânico de seu diagnóstico, não é raro que o paciente se alivie com a notícia. "Ah, não tem problema. É psicológico". Como se uma psique fragilizada, desamparada, ou mesmo defeituosa, não fosse um quadro por si só alarmante.

Um exemplo claro do quanto os aspectos psicológicos são determinantes de muitas situações e dificuldades é o que tem acontecido com alguns de nossos atletas nos Jogos Olímpicos de Pequim.

Senão, vejamos: na ginástica olímpica, o favorito Diego Hypólito erra um salto considerado "fácil" ao final de sua apresentação no solo, cai e perde os pontos necessários para conquistar a medalha de ouro tão sonhada. Aos prantos, não consegue explicar. Também na ginástica, Jade Barbosa, outro talento nacional, não obtém as boas apresentações que tem obtido em outros campeonatos internacionais. Nervosismo, choro, e a medalha continua inédita.

No salto com vara, Fabiana Murer teve um contratempo indigno para o padrão de organização de um país que recebe os Jogos Olímpicos. Parte de seu equipamento fora perdido. Visivelmente transtornada, não teve bom desempenho para se classificar. É compreensível que a disputa tenha o peso do Olimpo e o valor do ouro, mas desorganizar-se internamente diante da adversidade revela um grau desproporcionalmente acentuado de tensão.

Até a campeã seleção de vôlei masculino teve seu momento de desconcentração na partida com a Rússia na primeira fase do torneio, quando as grosseiras falhas da arbitragem levantaram a ira dos atletas que, nervosos, sucumbiram frente aos russos.

Ninguém discute o desejo e o talento desses atletas. Mas fica claro, por esses e outros resultados (sim, há outros), que há uma parte que os competidores não têm conseguido treinar tão bem quanto as táticas, técnicas e movimentos de cada esporte. São as emoções. Ou melhor, o controle das mesmas.

Nossas emoções têm grande impacto em nossas vidas. Como produto de nossa vida instintiva, elas dão o tom a afetos, atitudes, sentimentos e comportamentos. Por sua natureza primitiva e essencial, a emoção tem ampla e marcada influência em diversos processos mentais. E é por isso que elas podem estorvar a concentração num momento decisivo, em que a perícia fina exige um controle interior sobre a vida emocional.

Freud, em suas instruções para analistas, estabelecia que a maneira mais apropriada para ouvir um paciente é com um grau ótimo de neutralidade. O analista, assim, colocaria uma parte de si em contato com o paciente, mas preservaria outras partes, deixando-as em separado do tratamento. O analista, assim, evita fazer julgamentos e reprimendas, e se abstém de juízos de valor, conselhos e preconceitos. Além disso o analista não vive com seu paciente o tipo de intimidade que vive com outras pessoas de sua vida particular. O resultado pretendido é que o paciente consiga se ligar à parte do analista que lhe é mais "útil", que no caso seria a do terapeuta.

O modelo médico é semelhante. Não se espera que um cirurgião opere tranqüilamente a coluna vertebral de uma pessoa que ama, como um filho, por exemplo. Seu julgamento clínico, sua precisão e seus recursos internos estariam comprometidos nessa situação. Assim, o médico procura manter uma distância ótima com seus pacientes.

Essas condutas basicamente se justificam pelos poderosos efeitos das emoções na mente de quem deve realizar um trabalho preciso. Na hora decisiva, a relativa calma é alcançada pela capacidade da mente de separar temporariamente os aspectos emocionais e racionais. Sem isso, o nervosismo toma conta, e o que é fácil vira impossível.

O princípio do olimpismo é esse mesmo: superar limites humanos numa demonstração de capacidades, no afã de atingir níveis excelentes de performance, o que, na antiguidade, representava presentear os deuses com o que os homens tinham de melhor em termos de habilidades.

Vemos, hoje, que até na vida emocional isso tem validade. E esse é, no fim das contas, um desafio ainda maior do que as competições em si. Afinal, a prova maior de nossa condição humana, e que demarca a grandiosa distância dos deuses, é justamente a agonia de nossas emoções.

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24.7.08

Um amor de robô

A mais nova animação da parceria Disney/Pixar é “Wall-e”, do diretor Andrew Stanton, que está atualmente em circuito. Quando assisti ao filme, recentemente, saí do cinema comovido, maravilhado e com a cabeça repleta de idéias. Tentarei escrever sobre algumas delas.

1. “Wall-e” é a história do último robô que restou na Terra, num futuro apocalíptico em que todo o planeta virou um gigantesco depósito de lixo e sucata, um verdadeiro deserto, estéril e sem vida. No filme, já se passaram 700 anos desde que os humanos partiram para viver no espaço, refugiados em colônias de férias de duração indeterminada até que a sujeira do planeta fosse eliminada por completo pelos robôs designados para a faxina global.

Mas algo dá errado, e o robozinho Wall-e fica sozinho, cuidando diariamente, durante séculos, na infindável tarefa de limpar a porcalhada deixada pela nossa espécie.

Um dia, Wall-e recebe a visita de Eva, um robô mais moderno, de reconhecimento, enviado pelos humanos do espaço com a missão de procurar formas de vida vegetal na Terra a fim de verificar se é possível restaurar a vida no planeta. Daí o insólito ocorre: Wall-e se apaixona por Eva, e a aventura começa.

Wall-e e Eva, cada um a seu modo e de acordo com sua programação, procuram a mesma coisa: vida

2. O tema dos robôs com sentimentos humanos não é nada novo. Destaco alguns exemplos da TV e do cinema. Na série “Jornada nas Estrelas” havia o ciborgue Data, que, com um chip especial, podia ativar respostas emocionais como medo, raiva, tristeza, compaixão etc. em seu comportamento, o que lhe trazia muitas dificuldades e alguns aprendizados. Nas trilogias “Star Wars”, os famosíssimos R2-D2 e C-3PO experimentavam e expressavam coragem, medo, alegria, irritação etc. Enquanto R2 é uma versão cibernética de Sancho Pança, C-3PO é claramente um mordomo britânico, cheio de modos.

Mais recentemente, Steven Spielberg explorou o tema no controverso “Inteligência Artificial”, em que um robô-menino se liga afetivamente a sua dona, que assim tenta suprir seu desamparo diante da ausência do filho real. Proposta interessante, que colocou o ator-mirim Haley Joel Osment na difícil tarefa de tornar crível o argumento de que uma máquina é rapaz de emular os sentimentos do mais fundamental vínculo humano: o da mãe-filho.

Em se tratando de relações fundamentais, não se pode esquecer de “O Exterminador do Futuro”, que mostra o jovem John Connor, líder da resistência humana contra a revolta das máquinas, encontrando num frio e inexpressivo Arnold Schwarzenegger a figura de um pai forte e protetor, que nunca tivera.

Tantas histórias com robôs demonstram a onipotente pretensão do homem de conhecer e controlar seus próprios sentimentos, desejos e angústias. Afinal, se posso programar uma máquina para sentir prazer, sofrer ou desejar, é porque eu sou o verdadeiro senhor das emoções. Domino-as tão bem que consigo reproduzi-las num robô.

Mas como se vê, a fórmula básica de Hollywood sempre foi a de colocar atores reais para interpretar esses robôs com sentimentos. Sim, pois até o dróide pequenino R2-D2 continha um ator anão controlando seus movimentos por dentro da fantasia do robô.

Seria possível, então, uma máquina expressar essas emoções nessas histórias? Antes de “Inteligência Artificial” ser produzido por Spielberg, ele era um projeto do ousado diretor Stanley Kubrick, que pretendia usar uma máquina de verdade para ser o personagem central da trama.

Em “Wall-e”, algo parecido com essa proposta surge no resultado final, pois tanto o protagonista quanto sua parceira, Eva, foram desenhados como máquinas mesmo. Nada de sorrisos, dentes, pupilas, sombrancelhas, narizes, ou mesmo vozes para identificar as emoções dos personagens. Aliás, nenhum robô do filme possui forma humanóide. Eles são máquinas mesmo. O aspecto humano dos personagens, no entanto, é muito forte. Esse efeito é obtido graças às situações nas quais eles se envolvem, e nas demonstrações de sentimentos e afetos dos gestos e atitudes.

Esse é um dos pontos mais fortes do filme: a humanização dos personagens não se dá pela sua aparência, mas pelos seus conteúdos.

3. Que conteúdos? Sem dúvida, os sentimentos amorosos. Se acompanharmos as produções da Pixar ao longo dos anos, fica claro que o universo abrangido pelas histórias é exclusivamente pueril. Senão, vejamos: em “Toy Story” e “Monstros S/A”, as fantasias do universo infantil são o pano de fundo da trama; “Procurando Nemo” e “Os Incríveis” tratam de relações familiares; “Carros” e “Vida de Inseto” repetem a fórmula de personagens coloridos e engraçados. Algum traço de maturidade quanto à temática só apareceu mesmo no ano passado, no excelente “Ratatouille”, que mostrava os conflitos dos personagens entre a identidade predestinada pela família e o desejo de ser o que quiser.

“Wall-e” ousa bem mais. É o primeiro filme da Pixar a trazer uma história de amor, implicada com um tipo de maturidade diferente dos amores dos outros filmes citados.

Explico. Wall-e é um robô que compacta o lixo dos humanos e, em sua tarefa sem-fim, coleta uma série de objetos deixados para trás pelas pessoas: isqueiros, talheres, lâmpadas, anões de jardim, sapatos, bonecas, sutiãs etc. E não só objetos: ele grava na memória aquilo que acha mais importante sobre algumas experiências humanas que observa em filmes: apaixonamento, flerte, conquista etc. Aprende a dançar, a namorar e, ao que parece, a desejar a presença e o toque de um outro. De alguma maneira, coletando os resquícios da humanidade, Wall-e desperta em si seus sentimentos humanos e foge à sua diretriz fundamental de viver compactando lixo.

Ou seja, nosso robozinho não sente falta de uma família ou de amigos, mas de alguém para amar.

Nós não somos muito diferentes de Wall-e. Da mesma forma como o pequeno lixeiro faz, nós também vamos juntando uma série de objetos que vão se acumulando em nossa vida psíquica e que, com o desenvolvimento, constituirão diversos aspectos de nossa personalidade. Esses objetos são os diversos sentidos internos de tudo o que existe no mundo real. É como se existissem, dentro de cada um, uma mãe, um pai, um irmão, os amigos etc. Como vivemos várias experiências emocionais com cada uma dessas imagens internas, temos várias mães, vários pais, vários irmãos etc. representados internamente. É uma multidão.

Ao final, também somos coletores de experiências emocionais, às quais imprimimos significados. Somos, portanto, o resultado de uma série de tralhas e tesouros que juntamos e que compõem o que somos.

4. Os humanos aparecem em “Wall-e” como criaturas gordas, ignorantes, dependentes, comilonas, que vivem sentadas em cadeiras especiais, que não notam o mundo ao seu redor e que não sabem nem andar. Tudo isso surge como efeito de duas coisas: a falta de gravidade do espaço, onde eles vivem há séculos, e o atendimento prestado pelos robôs que se ocupam de tudo em suas vidas. Como vivem fechados na colônia espacial onde não falta nada, nem sabem o que é a vida na Terra.

Os humanos do filme são como bebês. Como têm os robôs para fazerem tudo para si, não precisam crescer e nem aprendem a pensar. Tornam-se preguiçosos e trouxas.

Aliás, a palavra “robô” vem do tcheco “robota”, que quer dizer “escravo”. “Wall-e” faz pensar no quanto nós é que acabamos nos tornando escravos das tecnologias que, supostamente, deveriam se submeter aos humanos. A pane recente, ocorrida em São Paulo, no serviço de internet da Telefônica é um claro exemplo do quanto a tecnologia pode nos tornar vulneráveis a nossa própria preguiça.

No filme, Eva e Wall-e devem proteger uma planta que poderá dar nova chance a uma vida na Terra, mas cabe aos humanos reaprender a caminhar com os próprios pés para reconstruir a vida no planeta. Os homens devem aprender a ser homens; quem se limita a ser mimado e cuidado por um outro, vive sempre como um bebê.

A mensagem é ecológica, atual, mas não tira o foco do filme nos sentimentos dos personagens principais. “Wall-e” é mesmo um filme de amor, até porque o robozinho ajuda Eva a completar sua missão como forma de estar junto de sua amada. Talvez essa seja a forma mais feliz de amar: um fazer juntos significativo e duradouro.

5. Além de ser uma história singela e emocionante, “Wall-e” é um filme ousado e corajoso pela escassez de diálogos. As falas são poucas, sendo que os personagens centrais não dizem nada. A expressão da emotividade vem pelos gestos, pela cena, pela música, pelo visual.

A tática é muito inteligente: ao deixar o filme sem falas, a ação passa a ter forte aspecto projetivo, ou seja, o espectador participa da história dando sentido a cada momento dela a partir de suas próprias emoções. O efeito é envolvente, porque a emoção e o humor de cada seqüência, antes de ser compreendida, é sentida diretamente pelo espectador.

Enfim, “Wall-e” é um filme imperdível. Ousado pela inteligência e pela sensibilidade, pode ser um marco para o cinema dito infantil. Foi-se o tempo em que filmes para crianças tinham que ser edificantes para a moral e o caráter. “Wall-e” é mais que isso: trata-se de um filme que fortalece o pensamento e acessa a emoção. E é, na opinião deste blogueiro, um dos mais belos filmes de amor que Hollywood já fez.


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9.7.08

Carta aberta ao Capitão Nascimento

Caro Capitão,

Sei que você não existe na nossa muitas vezes cruel vida real, mas mesmo assim me dirijo a você nesta carta aberta, imaginando qual poderia ser sua resposta, ou sua reação, diante do que vem acontecendo nos últimos meses em nosso país, em se tratando das diversas formas de violência e do desconcerto geral das instituições que deveriam cuidar da segurança pública.

Neste fim de semana, alguns policiais militares do Rio de Janeiro perseguiram um carro cheio de bandidos pelas ruas da Tijuca, na capital fluminense. Por imperícia, despreparo ou pura incompetência, acabaram descarregando suas armas no carro errado. No caso, era um veículo dirigido por uma mãe que estava com seus dois filhos, um de 9 meses e outro de três anos. Entre estilhaços, desespero e – imagino – uma total falta de compreensão do que estava acontecendo, essa mãe ainda tentou atirar pela janela do carro a mochila de um de seus filhos para que os policiais tivessem alguma chance de notar que havia crianças, e não bandidos, naquele veículo.

Não adiantou. Na cegueira do pensamento, da razão e do bom senso, aqueles PMs acertaram João Roberto, o filho de três anos, que morreu. A criança foi baleada na nuca, nas nádegas e na orelha. O pai da criança esbravejou através da imprensa sua dor e sua agonia. Foi uma das coisas mais difíceis de se ver ou ouvir. A vontade é de chorar, mas não sei se isso é só por conta da dor desse pai. Como ele, há tantos pais e mães que choram diariamente filhos mortos e perdidos. É que esse pai, Capitão, conseguiu falar da falência do estado e do Estado em que vivemos. Algo de muito bizarro ocorre num mundo em que tudo parece estar invertido: tem policial que mata no lugar de proteger, tem promotor que manda bala em vez de justiça, tem pai e mãe que joga o filho pela janela em vez de cuidar dele, tem legislador que dribla as leis quando sua função o manda desenvolvê-las, tem aluno que bate em professor no lugar de aprender as coisas boas que ele tem a ensinar. Tem de tudo! Em São Paulo, onde o trânsito responde a uma dinâmica semelhante ao do pensamento de um esquizofrênico catatônico, tem até motorista correndo quilômetros na contra-mão.

Daí eu lhe pergunto, Capitão. Você, que em “Tropa de Elite” se desesperava silenciosamente com a possibilidade de não ver seu filho crescer, pelo perigo de sua profissão, como se sente diante do choro de um pai que perdeu o filho por uma ação desastrada da própria polícia? Você, que ficou famoso no Brasil por mostrar como é seu jeito de lutar contra os fanfarrões por aí, o que diz sobre a fanfarra que as pessoas criam em suas muitas relações, desde a simples passagem pelo trânsito até as relações mais fundamentais, que são aquelas entre pais e filhos? Você, que no seu filme procurava com tanto furor um sucessor que pudesse substituí-lo à altura no batalhão, o que imagina sobre os nossos sucessores, a próxima geração, que herdará um mundo que já lhes é apresentado desde o começo pelo avesso? Você, que carrega o nascimento no próprio nome, como vê a civilização dar mostras de que não se sustenta e que, nessas falhas, a morte do outro é coisa banal? Você, que se tornou uma espécie de herói nacional, como se sente ao saber que João Roberto foi enterrado com o uniforme do Homem-Aranha? Tem hora que precisamos buscar nossos heróis na fantasia mesmo.

Como sei que não terei respostas suas, fico com minhas elucubrações. Quem trabalha com o método psicanalítico sabe que a palavra é o envoltório do pensamento. Tudo aquilo que conseguimos notar, discriminar, nomear e simbolizar pode, depois de tudo isso, ser pensado. O pensamento nasce, então, de uma transformação de nossos impulsos primitivos através de processos mentais evoluídos. Ele tem finalidade elaborativa, e nasce de pulsões primitivas.

Disso resulta que qualquer ato que não esteja vinculado ao pensamento é primitivo, cru. Quando não se opera no nível da palavra, sobra apenas o ato, o impensável. Pode reparar: a guerra surge quando a diplomacia falha, o tiro surge quando a negociação falha, o tapa surge quando não se diz o ódio, algumas doenças surgem quando o pensamento falha etc. No caso da trapalhada ação da polícia na Tijuca, o senhor sabe, capitão, que mesmo se o carro fosse o dos bandidos, o correto não era sair descarregando os cartuchos das armas. A polícia é repressiva, não assassina.

Parece, então, que nosso mundo caminha para o avesso nas relações por falhas graves na razão, no juízo, no pensamento. Primeiro eu atiro, depois eu pergunto. Primeiro eu mato, depois me defendo. Primeiro eu destruo, depois vejo o que aconteceu. A força supera a palavra. O braço vem antes do pensamento.

É, Capitão... O osso é duro de roer. Em meio a tanta estupidez e a tantas mortes estúpidas, faltam alguns Nascimentos.

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8.7.08

Violência

Há algumas semanas, assisti a um evento organizado pela Prefeitura do Município de Matão (interior de São Paulo) a respeito da prevenção à violência e aos maus-tratos. Na platéia, inúmeros profissionais de educação e da saúde, em geral aflitos quanto ao modo virulento como a violência e os maus-tratos tomam as diversas relações sociais e institucionais, em vários graus, e também quanto às conseqüências dessa propagação.

Nesse contexto de debate e informação, uma boa parte das atenções se concentrou no aspecto formador da educação, da família e da cultura como matriz essencial, ou fonte primária, de futuros cidadãos genuinamente preocupados em manter uma sociedade o mais livre possível das garras da violência.

Daí sugiram boas idéias. Um pai que, por exemplo, bate no seu filho para fazer com que ele faça os deveres da escola, provavelmente não só estará associando as tarefas à punição, como também ensinará ao seu filho que uma forma de conseguir o que quer é utilizando a força em vez da razão, o braço no lugar da palavra. Assim, não há dúvidas: um ambiente em que as pessoas se relacionam de forma violenta tenderá a perpetuar a violência.

Esse raciocínio, apesar de lógico, válido e comprovado, provoca em mim uma inquietação: seria a violência apenas uma questão de aprendizado? Determinados padrões de comportamento são os únicos fatores envolvidos na gênese da violência? A resposta depende muito da abordagem teórica, e também da definição de violência.

A princípio, é importante notar que é uma saída muito confortável essa de conceber a violência e qualquer forma perversa de agressividade como um produto advindo do mundo exterior. Afinal, se a violência é aprendida e reforçada, ela não possui origem em nenhuma disposição ou falha interna, mas sim do ambiente. Assim, nossos travesseiros podem ficar menos deformados pelo alívio de peso em nossas consciências. Se bato, mato, estupro, roubo ou desvio dinheiro público, eu não sou o culpado. Ou sou, mas também são aqueles que me ensinaram a ser assim.

Essa noção de que a violência e a agressividade são evocadas, despertadas ou eliciadas pelo ambiente gera conseqüências polêmicas. Tome, por exemplo, os videogames e os desenhos animados.

Há uma corrente anti-violência que se opõe à presença maciça de jogos eletrônicos cheios de morte e destruição, ou de desenhos com sangue, pancadaria e tiros. Tais elementos seriam danosos à mente em formação de crianças e adolescentes.

Me parece um exagero. Sou de uma geração que cresceu atirando, socando, chutando, soltando magias e bombas, e buscando armas cada vez mais sanguinárias no ambiente virtual. Jogos de luta e de guerra eram meus favoritos. E mesmo os com aparência mais suave, como os do estilo Mario Bros., envolviam ataques a inimigos. Na TV, larguei logo da Hanna-Barbera para cair nos incompreendidos animes, os desenhos japoneses de corações perfurados e braços decepados. Nada disso me fez agressivo, o mesmo valendo para meus amigos. Ao que me consta, ninguém agride suas esposas, tira rachas na rua, faz corrupção por ter passado a infância às voltas com esses jogos e animações.

Freud, há muito tempo, já havia considerado a ampla significância dos impulsos agressivos na constituição de um série de atributos humanos. Por exemplo, na pressão para a ação muscular, logo no início do desenvolvimento. Até hoje, já adultos, dizemos que precisamos de agressividade para avançar na vida e superar obstáculos. Sem um pouco de agressividade, não teríamos ânimo nem de sair de casa pela manhã para ir trabalhar. Aliás, sem agressividade não teria nem sexo. Seríamos todos castrados da força de nossos impulsos, e namoraríamos só como o Mickey e a Minnie. E isso sem falar na agressividade necessária, aquela que nos faz protestar quando algo está errado, a lutar contra injustiças, tiranias, abusos etc.

Ou seja, se a violência é a agressividade pervertida, dirigida a um fim destrutivo, é porque antes de ela existir enquanto fenômeno social, ela nasce dentro de cada indivíduo. Parece ser a má condução dos impulsos agressivos e destrutivos do homem que gera a violência como um sintoma individual e social. Ela seria como um lapso em nosso processo civilizatório.

Por isso tendo a pensar no reverso do ponto de vista alarmista das campanhas moralistas e pedagógicas para videogames e desenhos animados. Se uma criança escolhe esses produtos, pode ser por estar motivada a dar algum tipo de vazão a seus próprios impulsos agressivos num ambiente em que ela sabe que não haverá conseqüências reais. Afinal, se ela diz "morri" num jogo, ela já está apropriada de um senso entre o real e o virtual, entre a fantasia e o mundo externo. É sinal de saúde mental, já que conseguiu dominar a angústia desses impulsos agressivos no plano do faz-de-conta.

Assim, antes de proibir seu filho de ser o exterminador no plano virtual, pense na real violência que seria fazer de conta que a violência só existe no mundo lá de fora.

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15.6.08

Significados: criação e recriação

Segundo Bruno Bettelheim, psicanalista vienense, autor de "A psicanálise dos contos de fadas", um dos livros mais conhecidos sobre psicanálise aplicada, a luta fundamental da existência é a de encontrar significados na vida e para a vida. Uma pessoa pode ter muitas capacidades, habilidades e necessidades, mas só poderá construir e manter um sentido congruente com um estar-no-mundo se conseguir encontrar ou criar um significado para si próprio, para suas experiências e, finalmente, para a vida que leva.

De fato, a vida pode se tornar um mar de angústias e sofrimentos quando não se consegue responder a seguinte pergunta: "por que?". Diversos estudos que partem da clínica psicanalítica revelam que muitos de nossos desesperos não são fruto de carências de afeto ou de prazer, mas de um opressivo vazio de sentido.

Disso decorre que, no fundo, somos máquinas de atribuir significado a tudo. Assim, se escrevo neste blog, é porque acredito que essa atividade me ajuda a pensar e aprender mais sobre o que escrevo. Da mesma forma, se um raio cair na cabeça de alguém, ele pode pensar que isso aconteceu por conta da ira divina. Se alguém não encontrou a pessoa amada, pode concluir que isso não aconteceu porque ainda tem muito o que aprender no campo afetivo antes de se lançar num relacionamento. Essas razões ou crenças seriam verdadeiras? Quando falamos de mente, pouco importa. O significado é o que conta.

E aqui chegamos num princípio fundamental comum a todas as escolas teóricas da psicanálise: por trás de um acumulado de objetos, imagens, idéias e afetos do inconsciente, há sempre algum significado oculto que elucida ou explica fenômenos mentais e comportamentais.

Como assim? Pense num indivíduo que não consegue dormir. Sua insônia pode ser causada pelo seu hábito incorrigível de tomar café. Diversas explicações orgânicas e fisiológicas poderiam ser aventadas. Na ausência delas, pode-se buscar na mente alguma resposta. Assim, esse mesmo sujeito poderia se surpreender ao descobrir que, quando era pequeno, morria de ciúmes ao pensar que poderia ganhar um irmãozinho se não ficasse acordando e cansando os pais durante a noite, quando tardava a ir para a cama. Ou então que, quando já mais crescido, cabia-lhe a missão de vigiar a casa durante a noite toda, quando os pais estavam fora, trabalhando. E que essa missão, por exemplo, seria a prova de seu amor e respeito pelos pais.

Os psicanalistas trabalham assim. Escutando as amarras do inconsciente do paciente, ajudam-no a encontrar os significados escondidos por trás de suas dificuldades e, se possível, contribuir para que novos significados possam ser costurados.

Recentemente, terminei a leitura do recém-lançado "O conto do amor" (Companhia das Letras), primeiro romance do psicanalista Contardo Calligaris, colunista da Folha de S. Paulo. O livro é uma leitura interessante e prazerosa, que ilustra bem a busca por significados ocultos e a recriação dos mesmos.

Trata-se da história de Carlo, psicanalista e professor universitário, que começa a se interessar por fatos misteriosos do passado de seu pai, na Itália. Antes do falecimento de seu pai, este lhe conta uma história tão inverossímil quanto instigante. Ele teria sido, numa vida anterior, o ajudante de Sodoma, o pintor maneirista do século XVI.

Delírio? Fantasia? Sonho? O pai de Carlo morre sem que a resposta surja. Assim, movido por uma mistura de curiosidade com o desejo de conhecer mais a vida de seu pai, Carlo decide visitar a Itália para se aproximar dos afrescos de Sodoma presentes em cidades pelas quais o pai havia passado na juventude. Revira baús, relê diários, encontra gente que conhecera o pai. A história evolui num clima detetivesco que faz lembrar uma espécie de "Código Da Vinci" psicanalítico, já que as referências a obras e construções antigas fornecem as pistas para a resolução de um mistério de valor particular. Vale tudo para descobrir o que o pai quis lhe dizer com aquela conversa misteriosa.

Ao final da leitura, depois de várias surpresas, tem-se a dimensão do quanto que, compreendendo o passado, atingimos maior compreensão sobre aquilo que nos tornamos. Disso concluimos que, quando se fala da mente humana, há poucos acasos. Quase sempre há significados mais profundos que explicam o que somos e o que fazemos. E se por um lado não podemos mudar o passado, por outro ficamos com a certeza de que é possível ressignificar nossa existência.

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Nota: "O conto do amor" é claramente marcado por um viés autobiográfico proposital. Carlo é um alter-ego do autor, Contardo. A idade, a profissão, o pai, a origem, as referências a algumas pessoas conhecidas (como o amigo Alessandro, da infância do autor, que também aparece na história), e outras marcas do personagem Carlo coincidem com a vida de Contardo. Tal escolha não se deu por uma questão de estilo. Acredito que o autor escolheu dar seu próprio significado a uma experiência pessoal criando um romance que, autorizado pela ficção, elucida uma história particular.

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25.5.08

Indiana Jones e a aventura da vida

Saudosistas de plantão, estejam atentos. Está nas telas dos cinemas um dos filmes mais aguardados das últimas décadas. Trata-se da nova aventura de Indiana Jones, um dos personagens mais iconográficos e emblemáticos de Hollywood.

Longe das telas e da ação desde 1989, o herói arqueólogo retorna em "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal". Como nos três filmes originais da série, a produção é dirigida por Steven Spielberg e roteirizada por George Lucas.

Trazer Indiana Jones novamente à ativa, 19 anos depois de sua última aparição, é missão complicada. Além de o tempo já ter deixado suas marcas no personagem, no ator que o incorpora e na história em si, seguir com os filmes de Indiana é quase como uma aventura paleontológica: mexer em coisas antigas do público, nas velhas memórias empoeiradas dos anos 80, soterradas pela passagem dos conflituosos anos 90 e 2000.

O quarto episódio da série Indiana Jones chega num momento em que histórias e personagens já bem conhecidos por todos ganham continuações, versões ou refilmagens. Foi assim com Rocky Balboa, Rambo, os jedis de Star Wars, Superman, Batman, Speed Racer, King Kong, Transformers, além de muitos outros. Parece um certo "revival" dos heróis tradicionais. Fico imaginando se, muito além de um esgotamento criativo de roteiristas ou da fórmula segura dos produtores em recorrer a histórias que teriam um retorno financeiro garantido pela ampla e já comprovada aceitação do público, no final das contas, o retorno dos velhos heróis do passado represente uma tentativa de lidar de forma tranqüila contra as ansiedades diante de um futuro angustiantemente desconhecido.

Como assim? Pode reparar: todos nós temos uma necessidade de guardar o passado ou, pelo menos, respeitá-lo. A foto desbotada do casamento de nossos bisavós, o anel favorito da vovó já falecida, a lembrança do Corcovado de 1978, aquele vinil todo riscado do Secos e Molhados, e outros badulaques empoeirados não são desfeitos nunca. Nem sempre possuem valor simbólico, mas mesmo assim ficam guardados porque servem de testemunhas de nossa própria passagem pelo tempo, como se sua simples constância garantisse que alguma coisa na vida continuará como sempre esteve. Nós podemos mudar sem nem ao menos perceber, mas pelo menos nossa origem continuará a mesma.

Talvez seja essa a maior utilidade dos museus e memoriais: contemplar o passado, já escrito e registrado, para não nos angustiarmos tanto com o futuro, sempre imprevisível e em mutação.

Indiana Jones encarna bem essa missão de nos fazer reviver algo do passado como garantia para um futuro incerto. Isso porque ele é um paleontólogo que vive explorando as origens de nossa civilização, mas também um personagem já apropriado pela cultura pop mundial pela sua performance nos cinemas em seus filmes anteriores.

Afinal, os filmes da série Indiana Jones fundaram um gênero do cinema: a aventura. Antes de Indiana, os filmes de ação, socos, tiros e explosões eram associados a temas específicos: western, ficção científica, policial, guerra etc. É com Indiana que a indústria passou a produzir filmes em que o mote principal dos acontecimentos eram as próprias peripécias dos acontecimentos em si. Ou seja, se hoje gostamos tanto de Matrix, Senhor dos Anéis e companhia, devemos isso ao Dr. Jones.

Primeiro foi "Os Caçadores da Arca Perdida". Nessa aventura sabemos que Indiana é professor universitário e o acompanhamos na tarefa de impedir que Hitler se apodere da Arca Sagrada onde foram guardadas as placas dos 10 mandamentos. Para tanto, ele deve chegar primeiro até o artefato sagrado. Depois ele volta com "Indiana Jones e o Templo da Perdição". Nesse episódio ele confirma sua vocação de herói salvando um vilarejo indiano que tem suas crianças raptadas para trabalharem como escravas nas minas de um marajá perverso. A seqüência é fechada magistralmente com o episódio mais completo de todos: "Indiana Jones e a Última Cruzada". Nesse momento, o Dr. Jones encontra seu pai e, tal como cavaleiros templários, os dois devem procurar o Santo Graal para protegê-lo do mal. De quebra, sabemos mais sobre a origem do personagem: o apelido "Indiana", seu medo de cobras, o gosto por aventuras, a forma como ganhou seu chapéu inconfundível etc.

O caminho de Indiana Jones satisfaz o modelo básico do herói que mais atende às nossas aflições infantis de fragilidade e desamparo: primeiro ele combate o mal em nome do bem e suas leis (Deus e seus mandamentos), depois ele salva crianças inocentes indo buscá-las no próprio inferno, para então, no final, mostrar sua face humana amável e vulnerável, cuidando do pai, dos amigos e das outras coisas que ama.

O que falta, então, a esse herói para justificar seu retorno? Aparentemente, o fechamento do ciclo se dará com o surgimento de um herdeiro e a resolução de velhos amores. Essa é a graça do personagem Indiana Jones: ele não tem poderes e nem cinto de utilidade; ele é humano, comum, com neuroses e interesses não muito diferentes de qualquer um de nós. E "O Reino da Caveira de Cristal" mostra isso tudo novamente, com uma nova aventura, é claro.

Freud gostava de comparar o trabalho psicanalítico ao da arqueologia. Tratar os pacientes envolveria o analista num tipo de escavação mental, em busca do que está soterrado no inconsciente, guardado e reprimido desde a mais primitiva infância. Posteriormente, outros psicanalistas postularam que o processo analítico se dá como uma busca pela verdade. Ou seja, só conhecendo profundamente a nós mesmos é que podemos nos curar de nossas neuroses.

Com isso em vista, Indiana Jones talvez nos sirva também para lembrar que a maior arma que temos para resolvermos nossos enigmas e fazermos nossas descobertas é algum tipo de conhecimento. Assim, além de ser um herói, um símbolo de um passado querido, um personagem rico de identificações e projeções do público, Indiana Jones ainda por cima se dá ao luxo de nos mostrar algo que deveria vir no capítulo um de qualquer guia de aventuras: a lição de que toda procura é, antes de tudo, uma pró-cura. Principalmente, na aventura que é a vida.

O trailer de "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal":

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